A mãe disse que não podes comer chocolate? Não faz mal, a avó dá! Deve?
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"Não faz mal. A tua mãe disse que não podes comer chocolate? A avó dá.”
E não. O problema não é o chocolate.
O problema é a mensagem que vem embrulhada nele.
Uma criança precisa de limites para se sentir segura. Não precisa de limites perfeitos, rígidos ou iguais em todas as casas. Precisa de adultos que lhe transmitam alguma previsibilidade: aquilo que hoje é “não” não pode transformar-se imediatamente em “sim” só porque apareceu outro adulto.
Porque as crianças aprendem.
E aprendem muito depressa.
Se percebem que podem contornar uma regra perguntando à pessoa certa, vão fazê-lo. Não por serem manipuladoras mas porque descobriram, através da experiência, que determinada estratégia funciona.
“ A Mãe disse que não?”
“Então vou perguntar à avó.”
E quando a avó responde “eu deixo”, não está apenas a dar um chocolate.
Está, sem querer, a ensinar que os limites dos pais podem ser negociados através de outro adulto.
É aqui que entra a psicologia.
A consistência entre cuidadores ajuda a criança a desenvolver autorregulação e a compreender limites. Quando os adultos contradizem sistematicamente as regras uns dos outros, a criança pode aprender menos sobre o limite e mais sobre como contorná-lo.
E há algo ainda mais delicado.
Quando um adulto diz à criança “a tua mãe não deixa, mas eu deixo”, está a colocá-la no meio de uma relação que deveria ser resolvida entre adultos.
É uma forma de triangulação: em vez de a mãe e a avó conversarem sobre aquilo em que discordam, a criança passa a ser o ponto de ligação, o mensageiro ou, pior, o aliado.
E uma criança não devia ter de escolher lados.
Nem devia ouvir:
“Não contes à mãe.”
Porque um segredo entre uma criança e um adulto, quando serve para esconder que uma regra parental foi quebrada, deixa de ser apenas uma brincadeira.
Pode tornar-se um conflito de lealdades.
Isto não significa que os avós tenham de educar exatamente como os pais.
Claro que não.
A casa da avó pode ter mais mimos. Pode haver mais uma sobremesa. Mais uma história antes de dormir. Mais uma pequena extravagância.
Isso pode ser maravilhoso.
Mimar não é o problema. Desautorizar é.
A avó pode dizer:
“Na minha casa fazemos diferente.”
Mas é muito diferente de dizer:
“A tua mãe não sabe o que está a fazer. Eu é que deixo.”
Porque uma criança precisa de sentir que os adultos que ama não estão em competição.
E talvez este seja o maior presente que um avô ou uma avó pode dar aos netos:
não ganhar a batalha do chocolate.
Ganhar a batalha muito maior de lhes oferecer uma família onde podem amar todos sem terem de escolher ninguém.
Por isso, da próxima vez que a mãe disser “não podes comer chocolate” e a avó pensar “coitadinho, eu dou-lhe”…
Dê-lhe colo.
Dê-lhe atenção.
Dê-lhe amor.
Mas, se puder, não lhe dê uma guerra familiar embrulhada em papel de chocolate."