Fim de guerra no Irão "só com mudanças no sistema político"
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A guerra entre Irão e os Estados Unidos e Israel só chegará verdadeiramente ao fim quando houver mudanças no sistema político em Teerão, cujo programa nuclear nunca teve fins exclusivamente pacíficos, defendeu hoje uma Nobel da Paz iraniana.
Numa entrevista por escrito à agência Lusa, Shirin Ebadi, uma das convidadas para participar, como oradora na 10.ª edição das Conferências do Estoril, que decorrem a 29 e 30 deste mês no Campus de Carcavelos da Nova SBE, lamenta que, até agora, mesmo depois da morte do líder supremo iraniano Ali Khamenei, a 28 de fevereiro, não tenha havido sinais dessa mudança.
"O conflito entre a República Islâmica do Irão e os Estados Unidos e Israel só chegará verdadeiramente ao fim quando houver uma mudança fundamental no sistema político e na política externa do Irão. Até agora, não houve sinais dessa mudança", afirmou Shirin Ebadi, advogada e prémio Nobel da Paz em 2003.
A também ativista dos direitos humanos e a primeira mulher juíza no Irão, afastada do cargo na sequência da Revolução Islâmica de 1979, argumentou que desde essa data, Teerão declarou abertamente a sua oposição à existência de Israel e o seu objetivo de expulsar os Estados Unidos da região.
"Para alcançar estes objetivos, afetou recursos financeiros, materiais e militares substanciais à concretização da sua agenda. Enquanto a doutrina militar e a política externa do Irão não mudarem, o conflito poderá ser suspenso temporariamente, mas é provável que volte a eclodir", sustentou numa entrevista realizada com a ajuda de uma intérprete, uma vez que só fala Farsi.
Shirin Ebadi fundou e cofundou várias organizações de defesa dos direitos humanos, incluindo o Defenders of Human Rights Centre, em Teerão, defendeu que um cessar-fogo, por si só, "não pode resolver as causas profundas deste confronto", pelo que "uma solução duradoura exige uma transformação fundamental do sistema político iraniano e uma mudança significativa da sua política externa".
A ativista dos direitos humanos lamentou que o conflito já tenha ultrapassado as fronteiras dos países diretamente envolvidos, afetando o Médio Oriente em geral.
"Veja-se a atividade dos huthis no Iémen e o seu confronto com a Arábia Saudita. Os huthis são amplamente considerados um parceiro regional e uma força por procuração da República Islâmica do Irão. Teerão prestou-lhes um apoio militar significativo, incluindo armas e outros recursos. Sem o apoio iraniano, os huthis enfrentariam provavelmente dificuldades consideráveis para manter as suas atuais capacidades militares e influência regional", explicou.
Para Shirin Ebadi, ao longo do atual conflito, a retaliação iraniana às incursões dos Estados Unidos envolveu repetidamente ataques contra alvos em toda a região, como os Emirados Árabes Unidos, Omã, Bahrein, Kuwait, Arábia Saudita, Qatar e Iraque, e ainda a região do Curdistão, no norte do Iraque.
"O conflito transformou-se, assim, numa crise regional, com consequências que vão muito além do Irão, dos Estados Unidos e de Israel. Ainda assim, espero sinceramente que a guerra não se intensifique e que a região consiga evitar um confronto ainda mais devastador", declarou.
Questionada pela Lusa sobre se acredita que o programa nuclear iraniano se destina a fins pacíficos, o que está também na origem do conflito, Shirin Ebadi disse claramente que não.
"Na minha opinião, o programa nuclear iraniano nunca teve fins exclusivamente pacíficos. O enriquecimento de urânio a 60% está muito acima do nível necessário para a maioria das aplicações nucleares civis e suscita sérias preocupações quanto a possíveis intenções militares", justificou.
"Uma das exigências atribuídas aos Estados Unidos consiste em o Irão entregar cerca de 450 quilogramas de urânio enriquecido a 60%. O Governo iraniano tem-se recusado a satisfazer esta exigência. Esta recusa reforça as preocupações de que Teerão pretende aproximar-se do desenvolvimento de uma arma nuclear", prosseguiu.
Acredito que o programa nuclear iraniano nunca se destinou exclusivamente a fins pacíficos. Nas suas fases iniciais, a comunidade internacional prestou menos atenção às potenciais implicações militares do programa. No entanto, à medida que o programa se expandiu e as preocupações internacionais aumentaram, tornou-se cada vez mais difícil ignorar a sua verdadeira natureza", concluiu.
Shirin Ebadi é autora de vários livros, entre os quais dois publicados em Portugal – 'Despertar do Irão: Memórias da Revolução e da Esperança' (em 2007 pela Editora Guerra e Paz) e 'A Gaiola de Ouro: Três Irmãos no Pesadelo da Revolução Iraniana' (em 2009 pela editora A Esfera dos Livros).
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