Fotojornalista retratou todos os presidentes democráticos. O que conta?

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                    Fotojornalista retratou todos os presidentes democráticos. O que conta?
Fotojornalista retratou todos os presidentes democráticos. O que conta? (Foto: Reprodução)

António Cotrim retratou todos os presidentes do Portugal democrático, no país ou em deslocações ao estrangeiro, desde Ramalho Eanes a António José Seguro. Não escolhe favoritos, mas diz que Marcelo Rebelo de Sousa foi o mais interessante fotografar.

 

A sua ligação fotográfica com os presidentes começou ainda a agência Lusa não existia e Cotrim, um recém-chegado ao fotojornalismo, trabalhava na ANOP.

Como fotojornalista, António Cotrim começou a acompanhar os presidentes da República de Portugal com Ramalho Eanes (1976-1986).

O chefe de Estado tinha por hábito brindar ao novo ano à meia noite com os trabalhadores.

"Naquela altura, faziam-se aquelas passagens de ano do Presidente com os trabalhadores. Ia-se para as minas e, numa dessas passagens de ano no Alentejo, fui eu", recordou numa entrevista a propósito dos 40 anos da agência Lusa, que se assinalam este ano.

Em março de 1986, seria eleito Mário Soares (1986-1996), um chefe de Estado que António Cotrim não dissocia de Maria de Barroso Soares, um casal presidencial que acompanharia durante uma década.

Uma das fotos mais emblemáticas tirada por Cotrim ao novo presidente mostra Soares no 'cockpit' de um avião em Beja com o capacete a dizer 'Mário Soares PR', "mesmo à piloto".

"Gosto muito dessa fotografia. Mário Soares 'TOP GUN'", referiu.

Dos primeiros tempos dessa presidência, lembra-se da conhecidas sestas de Mário Soares a seguir ao almoço, estivesse onde estivesse, e dos serões que o casal presidencial tirava para ver a telenovela.

"O presidente gostava muito de quebrar o protocolo", recorda.

Do chefe de Estado seguinte, Jorge Sampaio (1996-2006), recorda-se da sua educação e cuidado com todas as pessoas que o rodeavam.

"Era um senhor, educado. Sabia sempre o nosso nome", elogiou.

A chegada de Cavaco Silva à presidencia da República (2006-2016) representou "um mundo à parte" para o fotojornalista.

"Havia mais distância, mais rigidez. Não tinha nada a ver nem com Mário Soares, nem com Jorge Sampaio. Era tudo muito mais calmo", contou, considerando que essas características o tornavam também muito menos interessante de fotografar.

Ainda assim, de todas as fotos que lhe tirou destaca uma captada durante uma visita à Noruega quando lhe ofereceram um bacalhau.

E na categoria "melhor objeto" para o fotojornalista, o ex-presidente Marcelo Rebelo de Sousa surge destacado no topo da tabela.

"O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa (2016-2026) bateu todos, todos, todos", exigindo um esforço físico redobrado para o conseguir acompanhar, aponta Cotrim.

"Exigia uma atenção constante. Era imprevisível", refere Cotrim, lembrando que Marcelo tinha sempre no carro uma sandes e um sumo, não fazendo sequer paragens para o almoço.

"Era quase 'non stop'. Não tinha agenda. Quando começava a agenda oficial, ele já tinha ido nadar, já tinha ido aqui, já tinha ido ali", reforçou.

Entre as muitas fotografias que lhe tirou, uma das que considera mais interessantes por causa do contexto em que se vivia, "por lapso", acabou por não ser divulgada na linha da Lusa.

Na imagem, captada em Lisboa, na noite dos Santos Populares, a 12 de junho de 2022, aparece Marcelo Rebelo de Sousa a beijar a barriga de uma grávida num contexto de forte debate público por causa do encerramento de várias urgências de obstetrícia no Serviço Nacional de Saúde.

A fotografia tornou-se viral e foi entendida como mensagem política ao governo socialista de então. Dois dias antes, tinha havido notícias de que um bebé morrera à nascença, no hospital das Caldas da Rainha, que tinha as urgências fechadas por falta de médicos.

A fotografia só foi conhecida porque o fotojornalista a publicou, dois dias depois, na sua página de Facebook, a preto e branco, e com o comentário "Com tantas urgências de obstetrícia a encerrarem todo o afeto é necessário."

Cotrim explicou na altura que não mandou a fotografia porque estava a "trabalhar a mil à hora" e centrado na urgência de mandar para a agência as fotos que melhor ilustrassem o serviço dos Santos Populares. Só muito tempo depois, ao rever o serviço, atentou na fotografia, que tinha entretanto perdido a atualidade.

Depois do "furacão" Marcelo, Cotrim questionava-se como seria a Presidência de António José Seguro.

Não demorou a perceber: "É mais calmo. Não há confusão".

António Cotrim, de distribuidor de notícias a fotojornalista premiado

O fotojornalista António Cotrim, com 40 anos de carreira na Lusa, é um dos profissionais mais experientes da agência. Começou como distribuidor de notícias e evoluiu para uma das figuras mais reconhecidas do fotojornalismo português.

Lusa | 08:08 - 14/10/2026